Dia e noite nos abandonamos

Pode parecer às vezes que ao não nos importarmos com as coisas ruins elas deixam de  existir. Negamos muito os nossos sofrimentos, como se eles pudessem ser substituídos  por   uma alegria ingênua e efêmera. Tentamos fazer parecer que o sofrimento é parte de  um  conto que chegará a um ponto aonde tudo virá a ser soluções e felicidade. Tudo isto  em  uma busca inglória de evitar o sofrimento. E acabamos sempre indo de encontro a ele  através de angústias e medos que surgem sem explicação aparente.

Sempre desejamos e nos frustramos porque não podemos realizar todos os nossos desejos. E esta experiência que queríamos realizar e não conseguimos, não desaparece ao longo do tempo, pois tudo fica registrado. Estamos sempre lembrando, como experiências, tanto o que vivemos quanto o que queríamos ter vivido e não conseguimos. E sentimos as mesmas emoções através das duas como se fossem a mesma. É o viver e não viver ao mesmo tempo, que experimentamos eternamente como partes de uma mesma experiência. Só nos resta amadurecer, assumindo nossa responsabilidade de ser diante deste paradoxo.

Não somos donos do nosso destino, mas somos responsáveis por ele. Podemos fazer escolhas diante das experiências que a vida nos apresenta. Podemos e devemos assumir responsabilidades. O ser humano sempre cresce quando assume responsabilidades. Somos uns, filhos, somos outros, pais.

Assumir responsabilidades e enfrentar desafios é uma forma de não nos abandonarmos. E para enfrentarmos os desafios precisamos ter coragem que, segundo Aristóteles, pode não ser a maior das virtudes, mas é a que garante todas as outras.

Leon Ayres

2005